
Assim como uma ferrovia, a internet é regida por um protocolo chamado BGP, onde diferentes provedores trocam trafego baseado em acordos comerciais, troca mutua, e redundância para evitar que links caiam e fiquem indisponíveis. É como se a ferrovia passasse por diferentes países, e se um dos trilhos tivesse problemas, ocorre a simples virada de uma chave, na maioria das vezes automaticamente, e então o trem poderia seguir pelo outro trilho sem problemas.
Caso queira conhecer mais sobre essa “comutação” de caminhos virtuais da internet, leia mais sobre o protocolo BGP e sobre Peering.
Porem, ao confiar que seu “trem” (uma analogia aos seus dados, como um acesso a uma pagina Web ou uma conversa do WhatsApp) passe por trilhos de outros países, pode ser que atores mal-intencionados decidam “bisbilhotar” ou ate mesmo “desviar” seu trem do destino original dele.
Sabemos que a maior parte do conhecimento científico nacional é produzido nas nossas universidades. Também é do conhecimento publico que agências de segurança governamentais de outros países se empenham em “hackear” os servidores de conteúdo, principalmente de e-mail, e quando não conseguem, emitem “intimações secretas” que obriga tais provedores a fornecerem, secretamente, os dados armazenados neles, e o mesmo não pode revelar que entregou as informações dos seus usuários.
A Soberania Nacional estaria garantida no caso de uma universidade guardar toda a comunicação de uma pesquisa científica valiosa, financiada com capital da União, em servidores hospedados nos EUA, na Inglaterra ou na Irlanda? É admissível que servidor de e-mail de uma entidade governamental esteja hospedado fora do país?
Recentemente, a Rússia levou tais preocupações técnicas ao nível politico, avançando uma lei que pretende isolar toda a internet do país do trafego internacional. Na minha opinião, não é preciso ir tao longe, mas segundo Thomas Jefferson: – “O preço da liberdade é a vigilância eterna”.
Caso você use o sistema operacional Windows, existe uma ferramenta chamada “tracert.exe”, que te mostra os caminhos da chamada “ferrovia virtual” que levam seus dados desde a sua maquina ate a página que você acessa. Já utilizou a ferramenta alguma vez? Não? Então faca o teste !
Peguemos por exemplo o site do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), abra o prompt de comando (cmd.exe) e rode o seguinte comando: tracert.exe “www.gsi.gov.br”
Por onde passam seus pacotes?
Veja um exemplo realizado no sistema operacional Linux, a partir da rede da UFRJ:
Tracing the path to http://www.gsi.gov.br (170.246.252.25) on TCP port 80 (http), 30 hops max
1 rt-ct-bloco-G.ufrj.br (146.164.5.129) 11.096 ms
2 10.146.3.25 0.553 ms
3 200.20.98.245 3.127 ms
4 200.20.96.23 0.923 ms
5 200.20.96.24 1.542 ms
6 200.20.96.6 1.903 ms
7 rederio-rj.bkb.rnp.br (200.143.254.138) 1.383 ms
8 sp2-rj-oi.bkb.rnp.br (200.143.253.221) 9.069 ms
9 as266031.saopaulo.sp.ix.br (187.16.223.155) 24.937 ms
10 vpn-pr.planalto.gov.br (170.246.252.2) 26.423 ms
11 170.246.252.25 [open] 25.616 ms
Agora veja outro exemplo rodado a partir da rede da GVT em Goias, também a partir de outro sistema Linux:
1 DSL-2401HN2-E1C.DSL-2401HN2-E1C (192.168.15.1) 11.045 ms
2 gvt-b-sr02.bsa.gvt.net.br (179.184.126.18) 33.382 ms
3 179.184.83.75.dynamic.adsl.gvt.net.br (179.184.83.75) 25.475 ms
4 187-100-163-13.dsl.telesp.net.br (187.100.163.13) 39.393 ms
5 189-109-75-122.customer.tdatabrasil.net.br (189.109.75.122) 42.045 ms
6 *
7 201-20-71-5.dynamic.mobtelecom.com.br (201.20.71.5) 61.931 ms
8 *
9 *
10 *
11 vpn-pr.planalto.gov.br (170.246.252.2) 57.000 ms
12 170.246.252.25 (170.246.252.25) <syn,ack> 58.211 ms
Para chegar no servidor do GSI a partir do Rio de Janeiro, foram necessárias 11 saltos. A partir de Goias, foram necessários 12 saltos, porém temos 4 pontos no meio do caminho não identificados, pois os provedores que operam estes computadores provavelmente não querem a sua identificação – por motivos de segurança ou algum outro. Você pode utilizar a ferramenta chamada “whois” para pesquisar sobre onde se encontra cada um desses “endereços IP”.
Vamos pegar o IP do salto 4 do teste feito a partir de Goias, e acessar o seguinte site:
https://registro.br/2/whois
Podemos ver que esse IP pertence a “TELEFÔNICA BRASIL S.A”
Caso houvesse um IP internacional no meio do caminho, significaria que desde a sua casa ou local de trabalho, a visitar o site do GSI, você teria saído do país e depois retornado, para só então acessar um site governamental. Nas regras da internet, não existe nada de errado nisso, pois aquele caminho foi escolhido como o disponível na hora do seu acesso – ele pode mudar durante qualquer hora do dia. Porem em termos práticos, significaria que um usuário acessando um site do governo precisou passar antes por outro país. Eis o problema de jurisdição na internet.
Ja encontrei situacoes em uma empresa que trabalhei, que apos uma nova licitacao de provedores de internet, todo o trafego internacional obrigatoriamente passava antes por Nova York. Nao existe nada de errado nisso, porem devemos considerar com quais provedores de internet nos relacionamos, e qual a “politica de peering” do mesmo. Quando falamos em órgãos governamentais, a segurança deve ser redobrada.
Sabemos que mesmo em solo nacional, existem indivíduos e instituições dedicadas a investigações ilegais e trabalhando para ou em conjunto com governos estrangeiros, como já falei. As recentes notícias sobre vírus estrangeiros utilizados para espionagem politica no Brasil, inclusive tendo possivelmente sido utilizado como acessório no assassinato do famoso jornalista Jamal Khashoggi, nos levam a repensar a comunicação institucional no Brasil, principalmente em como melhorar a segurança dos dados dos nossos governantes.
Os servidores do WhatsApp estão localizados nos EUA, não seria o caso de utilizarmos um aplicativo nacional, com hospedagem em servidores seguros nacionais, para a comunicação institucional? Temos engenheiros de computação suficientes para realizar a programação de tais aplicativos e a configuração de servidores com baixo custo e em relativo curto espaço de tempo.
A Soberania Nacional na internet é uma questão complexa. pois as bordas virtuais da internet se sobrepõem de uma maneira que não existe paralelo no mundo físico, auxiliada por protocolos que a maioria das pessoas não sabem como funcionam. Precisamos melhorá-la.








